KITTY CORCORAN E A FADA VERMELHA

 

Uma lenda da Irlanda

 

 

in Histórias e Lendas da Europa

 

 

 

 

 

 

 

Personagens

Narrador 1

Narrador 2

Kitty Corcoran

Paddy

Vizinho 1

Vizinho 2

Fada

Grupo de Fadas

Grupo de Curandeiras

Grupo de Vizinhos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Adaptação de:

Ana Filipa Caeiro

Filipa Machado

 

(8º Ano)

 

Colégio Portugal

Fevereiro 2008

 

 

CENA I

 

(Música. Cenário: Mesa com loiça e cadeiras. Vassoura. Pano do pó. Um colchão com um lençol. Balde e esfregona. Entram fadas a dançar uma música irlandesa.)

 

NARRADOR 1 – A história que vos vamos contar passou-se há muitos séculos, na Irlanda, quando as fadas ainda viviam entre os homens e ora os protegiam ora lhes pregavam partidas.

 

(Entra Kitty, muito devagar, muito branca, parecendo doente. As fadas dançam à sua volta. Depois saem.)

 

KITTY – Ai que mal disposta que eu estou! Mas que vida a minha, hem? Estou sempre doente, nunca me sinto bem. (Senta-se muito triste)

 

CENA II

 

(Entra Paddy e dirige-se a Kitty ajoelhando-se ao pé dela e fazendo-lhe festas)

 

NARRADOR 2 – Kitty Corcoran era uma rapariga nova e bonita, mas estava sempre adoentada e ninguém descobria a origem do mal. Paddy, o marido que a adorava, muito preocupado, levara-a aos melhores médicos da Irlanda mas nenhum conseguira descobrir o seu mal. 

 

PADDY – Olha, Kitty, descobri outro médico. Este de certeza que te vai curar.

 

KITTY – (com um ar muito enjoado) Ai que mal disposta que eu estou! Não vale a pena, ninguém me pode ajudar.

 

PADDY – Então, se não queres, vou levar-te a uma curandeira que dizem que faz milagres. Pode ser que ache a cura para o teu mal. (Saem) (Os adereços são puxados para o lado).

 

CENA III

 

(Música. Entram curandeiras a dançar, cheias de colares e pulseiras. Kitty e Paddy entram também e elas puxam Kitty e dançam à sua volta. Depois saem e deixam-nos sozinhos.)

 

KITTY – Eu não te disse? Nem as curandeiras me podem ajudar! Os enjoos continuam. Ai que mal disposta que eu estou!

 

PADDY – Temos de continuar a procurar. Não desesperes, querida Kitty. (Sai)

 

CENA IV

 

(Música. Manhã. Entra Kitty muito triste.)

 

 KITTY – Ai que mal disposta que eu estou!

 

(Pega numa chávena, leva-a à boca mas larga-a. Pega na vassoura, começa a varrer mas larga-a cansada e senta-se. Levanta-se, pega no pano do pó, limpa a mesa e começa a tossir)

 

NARRADOR 1 – (Vai falando à medida que Kitty faz os gestos) Kitty levantava-se todas as manhãs com grande esforço. Quase não tocava na comida, a vassora parecia-lhe pesadíssima. O pano do pó provocava-lhe ataques de tosse!

 

NARRADOR 2 - Para a pobre rapariga as tarefas mais simples eram gigantescas. A única solução que encontrou foi habituar-se a ser muito metódica.

 

KITTY - Se não marcar uma hora para cada trabalho, o mais certo é não fazer trabalho nenhum!

 

NARRADOR 1 – Assim, ao nascer do sol arrumava o quarto, ao meio dia em ponto servia o almoço, ao fim da tarde lavava o chão e antes do pôr do sol abria as janelas e atirava a água suja para o jardim.

 

(Música: Arruma o quarto, põe a mesa, o marido entra e ela dá-lhe o almoço, lava o chão, pega no balde, atira a água para o jardim – público)

 

CENA V

 

(Entra Paddy com um ramo de flores)

 

PADDY -  Minha querida Kitty, sentes-te melhor hoje?

 

KITTY – Não, Paddy, continuo mal-disposta.

 

PADDY - És um exemplo para todos, minha querida. Estás cada vez mais fraquinha mas nunca faltas aos deveres de dona de casa. (Sai)

 

CENA VI

 

(Entra Paddy com sacos)

 

NARRADOR 2 - Querendo ajudá-la a recuperar a saúde, cobria-a de mimos e atenções.

 

PADDY - (Animado) Querida, trouxe-te manteiga fresca e um docinho! 

 

KITTY - (Desanimada) Não me apetece, querido...

 

PADDY – Então e o que está aqui dentro, meu doce?

 

KITTY - (mostrando-se enjoada) Costeletas de carneiro! Oh querido, és um amor, mas não vou comer nada...

 

PADDY – Então vamos sair um bocado para apanhares ar, meu amor. (Os adereços são retirados para o lado.)

 

CENA VII

 

(Música. Entram os vizinhos. Dança do campo. Entra Paddy muito gordo com Kitty.)

 

VIZINHO 1 (com ar de gozo)- Olha como está tão desproporcional o casal Corcoran. Ele quase não se mexe com tanto peso, e ela não se mexe de tão magra que está!

 

VIZINHO 2 - Ela agora está bem pior, neste tempo tão bom, com este cheirinho a plantas, e ela numa melancolia tão profunda...

 

VIZINHOS - Coitados! (abanando a cabeça e olhando para o casal Corcoran)

 

KITTY - (Profundamente desanimada) Toda a gente está feliz menos eu! Uma estação tão quente e eu cheia de frio... (Saem todos)

CENA VIII

 

(Música. Entra Kitty e senta-se numa cadeira. Entra a fada.)

 

FADA - Kitty! Kitty Corcoran!

 

KITTY (Ergue-se e esfrega os olhos) - Quem está aí?

 

FADA - Kitty Corcoran, ouve o que tenho para te dizer.

 

KITTY – (Assustada) Sim.

 

NARRADOR 1 – Cheia de respeito, Kitty ouviu a fada. Se uma fada se dava ao trabalho de a visitar, o melhor mesmo era ouvi-la e não falar. Sabem que as fadas são muito susceptíveis e ofendem-se com facilidade!

 

FADA - Estás doente há sete anos, não é?

 

KITTY - É

 

FADA – (Um pouco zangada) Pois fica sabendo que a culpa é tua.

 

KITTY - Minha? Porquê? Que mal fiz eu para merecer semelhante castigo?

 

FADA - Simpatizo contigo, portanto vou dizer-te a verdade. Eu pertenço ao «Bom povo», deves saber o que é isso...

 

KITTY - Não.

 

FADA - O bom povo é o povo de fadas, bruxas e gnomos. Nos nossos passeios cruzamos a tua porta duas vezes ao dia, e ao pôr-do-sol levamos sempre com um balde de água suja em cima da cabeça. (Kitty leva as mãos à boca, aflita) E por isso resolvemos castigar-te com esta doença que não anda nem desanda. (Zangada)

 

KITTY – Mas eu não sabia, juro que não sabia!

 

NARRADOR 2 - Kitty achava que o castigo era injusto, visto que ela não poderia adivinhar que o «Bom povo» passava à sua porta todas as tardes, à hora de Kitty despejar o balde de água suja para o jardim. Mas não reclamou.

 

NARRADOR 1 - Na Irlanda, todos conhecem o feitio instável do “bom povo” que ora protege os humanos, ora se diverte a pregar-lhes partidas desagradáveis. Por isso, Kitty optou por ficar calada.

 

FADA - Se prometeres nunca mais deitares água suja aquela hora naquele sítio, ficas curada.

 

KITTY – (Animada) Sim! Sim, Prometo.

 

FADA - Mas lembra-te, se não cumprires a promessa nunca mais recuperas a saúde, pois nenhum homem te pode curar. Adeus. (Música. Acena e sai.)

 

KITTY – (Feliz) Sinto-me bem! Já não estou agoniada nem mal disposta. Vou preparar um óptimo jantar para o meu Paddy. (Música enquanto prepara o jantar)

 

CENA IX

 

(Entra Paddy)

 

PADDY – Hum! Que cheirinho, meu amor! Costoletas de carneiro! Só tenho pena que não comas, meu doce!

 

KITTY – Não como? Claro que vou comer! Nunca tive tanta fome na minha vida!

 

PADDY – (Espantado) O quê? Tens fome?

 

KITTY – (Feliz) Sim, muita mesmo. Estou curada.

 

PADDY – Oh, minha querida! Que feliz estou! (Abraçam-se)

 

NARRADOR 2 – E foi mesmo assim que esta história aconteceu, podem acreditar. O “bom povo” deu uma lição a Kitty Corcoran que aprendeu que o lixo não era para atirar pela janela fora como era hábito nessa altura.

 

NARRADOR 1 – Mas atenção. Olhem que as fadas andam por aí. Se elas souberem que vocês deitam o lixo para o chão e se tiverem o azar de levar com alguma lata ou uma garrafa na cabeça ... bom ... preparam-se para ficarem mal-dispostos durante sete anos.

 

NARRADOR 2 – Estamos a avisar ... Lembrem-se. Olhem as fadas!

 

(Música. Entram todos e agradecem)

 

FIM